Quando estávamos na guerra.
Esta história
aconteceu há muito tempo, durante uma extensa guerra entre duas nações rivais.
A disputa por uma região rica em recursos minerais era algo histórico e ambos
os países acreditavam que seu futuro dependia do domínio dessas riquezas.
Como em toda
guerra, a ambição dos poderosos faz com que os mais jovens sofram, já que são esses
que são colocados na frente de combate.
Viktor era um
jovem assim como outros milhares, que viu suas aspirações e sonhos serem
interrompidos pela convocação para a guerra aos dezoito anos. Não era, com
certeza, uma das cabeças mais altas entre seus colegas, mas era o mais largo
entre eles devido ao trabalho ao qual estava acostumado na venda de seu pai,
carregando pesadas caixas pelo vilarejo durante as entregas. O seu cabelo era
bastante escuro e seus olhos tom castanho já se mostravam mais duros e cansados
pelos dois anos de intenso combate.
Nos raros
momentos que podiam recostar entre uma batalha e outra, os soldados contavam
como eram suas vidas antes de irem para a guerra, seus sonhos e o que
pretendiam fazer logo que fossem liberados.
Independente do
local ou dos planos, todos, sem exceção, falavam do seu amor por sua esposa ou
pela amada que deixaram em suas vilas e como pretendiam casar assim que
chegassem e Viktor não era diferente.
Yulia e ele
cresceram juntos, sempre estavam um com o outro, essa amizade fez com que os
dois prometessem que estariam sempre lado a lado e para isso se casariam quando
tivessem idade suficiente.
O tempo passou e
nada diminuía o sentimento entre os dois, muito pelo contrário, cada dia mais o
amor de Viktor por Yulia crescia e ele tinha plena certeza de que isto era
recíproco, ela fazia questão de demonstrar.
Quando ele fora
chamado para a guerra, Yulia já era praticamente uma mulher feita, dezessete
anos, cabelos cor de palha seca e olhos tão azuis que poderia fazer o céu ficar
com inveja, olhos estes que se tornaram vermelhos de tanto chorar pela partida
de Viktor.
Agora estava ele
ali, no meio daquele inferno, onde o único alento era a fumaça azul do cachimbo
que fumava, isto porque o fazia recordar dos olhos de Yulia.
Depois de muitos
combates, Viktor se mostrou um soldado formidável. Fora então condecorado por
seus atos em batalha e como prêmio pode retornar a sua casa, poderia agora
retornar aos braços de Yulia.
Assim que fora
dispensado, subiu em seu cavalo negro e percorreu em ritmo acelerado o caminho
que o separava do seu amor e de tudo que conhecia na vida, por todo o percurso
traçou planos de como seria sua vida, ensaiou todas as palavras que diria a ela
quando se encontrassem, diria o quanto sentiu sua falta e como a imagem de seu
rosto o salvou durante as batalhas e fez com que ele tivesse um motivo para
viver e lutar.
Chegando ao
vilarejo, correu até a venda de seu pai e percebeu que havia pouquíssimos produtos,
toda a produção estava sendo destinada aos soldados em combate e pouco havia
para a população, entrou e encontrou seus pais, visivelmente abatidos,
provavelmente pelos tempos difíceis que estavam vivendo, isso não impediu que
ambos abrissem um largo sorriso ao ver o filho de volta ao lar.
Viktor amava
muito seus pais, mas neste momento ele só conseguia pensar em Yulia. Disse aos
seus pais que iria até a casa dela para dar as boas notícias de seu regresso, o
olhar de sua mãe fez com que a barriga de Viktor congelasse, algo não estaria
certo, mas acreditou ter tido uma sensação errada.
Acelerou o
quanto pode até a casa do amor de sua vida, bateu a porta com o maior sorriso
que já dera em sua existência. Yulia abre a porta, sorrindo, os cabelos cor de
palha seca, mais longos do que quando ele havia ido para a guerra, e no momento
em que os olhos azuis encontraram os seus olhos o sorriso dela se desfez e aos
poucos o dele também.
Yulia passou a
fitar as botas do soldado e sem que ambos trocassem uma palavra, uma voz
masculina soou por de trás dela dizendo:
- Quem é, amor?
O rapaz era
bastante inteligente para entender tudo que estava acontecendo ali, assim como
ela já estava fazendo havia alguns segundo, ele olhou para as próprias botas, fez
um leve aceno com a cabeça, girou em seus calcanhares e partiu.
Voltou para casa
com seus olhos marejados, encontrou um pouco de tabaco amargo na venda de seu
pai, recostou em uma cadeira, sacou seu cachimbo e o preparou. Enquanto sentia
o sabor do tabaco lembrou-se de tudo o que havia passado, antes e durante a
guerra.
O jovem não
tinha mais duvidas, voltaria ao combate, pois lá haveria a bala certa para ele,
a bala que acabaria com sua tristeza, a dor seria menor do que a que estava
sentindo naquele momento.
Na manhã
seguinte, antes mesmo do sol despertar, já estava no lombo de seu cavalo negro
retornando para se realistar ao exército, com certeza teriam um lugar para um
excelente soldado como ele.
Se sentiu
estranhamente feliz ao se preparar para o combate mais uma vez. Em instantes
estaria em um campo de batalha, fazendo o que se acostumou a fazer nos últimos dois
anos.
Fazia parte da
cavalaria e do alto da colina em que estava pode perceber a aproximação do
exército inimigo. Era uma manhã fria, a neve caía levemente sobre o local, mas
Viktor tomou cuidado para que a lâmina de sua espada não ficasse presa em sua
bainha por conta do frio.
Os inimigos
armaram uma primeira linha com homens armados de mosquetes, ao ver isso Viktor
sorriu, ao fundo estava a artilharia com seus canhões e no meio a infantaria e
a cavalaria adversária.
O capitão
preparava a carga da cavalaria e o jovem sentia seu coração bater cada vez mais
forte. Ao ser ordenada a disparada Viktor era o primeiro usando a velocidade de
seu cavalo.
E foi ele quem
deu o primeiro tiro, com seu mosquete, acertando um dos atiradores inimigos.
Continuou a carga agora gritando e sacando sua espada, enquanto as balas zuniam
próximas aos seus ouvidos. O som dos mosquetes e dos canhões era ensurdecedor e
o cheiro de pólvora começou a ficar mais forte assim que as balas começaram a
ser atiradas de todos os lados.
Sem perder o
ritmo Viktor chegou a linha de atiradores, a fumaça impedia que seus
companheiros soubessem onde ele estava, logo em seguida estes foram chegando e
se juntando ao combate e à batalha de sons se somava o tilintar das espadas.
Aos poucos o
barulho foi diminuindo, os sons estrondosos das armas foram dando lugar a,
quase inaudíveis, gemidos e murmúrios de clemência e de dor.
Ao longe, bem atrás
nas linhas inimigas, podia se ver um pequeno incêndio, os sobreviventes olhavam
para o local, lamentando pelos soldados que haviam perdido. Os compatriotas de
Viktor haviam vencido o combate, mas nem sinal do bravo soldado.
Instantes
depois, em meio as chamas, surge o rapaz, montado em seu cavalo negro, a espada
empunhada coberta de sangue, assim como seu rosto liso e suas roupas.
Viktor pensou
que, aparentemente, a morte não era para ele.
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