domingo, 4 de abril de 2021

Sr. Fofinho - Parte 1

 "Sr. Fofinho"

                A coragem pode vir dos lugares mais improváveis. Alguns diriam que esta é a ausência do medo, mas não concordo com esta definição. A coragem é a ação tomada apesar do medo.

                E naquela noite quente de Janeiro, a coragem se mostraria, apesar de ninguém ver

                - André, você prometeu que iríamos juntos para casa da minha mãe para o feriado – disse consternada a esposa.

                - Mas é minha carreira, Cecília, eu não sei se terei outra oportunidade como esta – respondeu o marido – Eu encontro com vocês amanhã a noite – completou.

                - Você não passa mais nenhum tempo com a gente – disse com lágrimas nos olhos – Já são o que? Três anos? Você está perdendo o crescimento da sua filha

                - Eu trabalho duro para dar uma vida digna para você e para a Marisa – disse o rapaz com firmeza

                Cecília, apenas baixando os olhos, desligou o celular, terminou de colocar as malas no carro, preparou a cadeirinha de Marisa e entrou para buscar a pequena.

                - Vamos filha, está na hora de ir para a casa da Vovó – disse a mãe

                Pegou a criança no colo e prendeu-a a cadeirinha

                - Mamãe, você pegou o Sr. Fofinho? – indaga a menina

                - Ele está aqui – responde dando o velho ursinho de pelúcia para a filha

                A mãe, então, toma seu lugar no assento do motorista e inicia a viagem até a casa de seus pais, avós de Marisa.

                Já era noite, a estrada, com poucos carros, era apenas uma imensidão de tranquilidade. E o leve balanço fez com que Marisa sentisse suas pálpebras pesando, até pegar no sono.

                O que pouca gente sabe, é que, ao dormir, um novo mundo é criado, o Reino da Soneca, local que é protegido por guerreiros ferozes e valorosos, os bichinhos de pelúcia, ou qualquer outro objeto que uma criança sinta-se segura ao dormir junto.

                O Sr. Fofinho não era diferente, era um guerreiro experiente, já havia travado várias batalhas contra os Monstros do Pesadelo, nunca permitindo que uma criança sob sua guarda fosse assombrada por essas criaturas vis

                Ao olhar para o ursinho era dificil acreditar que tivesse qualquer experiência de combate, era a coisa mais fofinha do mundo, como seu nome já diz, um ursinho pardo com um círculo na barriga de tom mais claro e na sola de uma das patinhas traseiras, ou dos pés como queira chamar, a palavra “Te” e na outra a palavra “Amo”.

                - Olha ai quem chegoooou! – exclamou Leo

                Leo era uma onça pintada de pelúcia, a ironia da coisa, já que com esse nome se esperasse um leão. Se vestia de mosqueteiro, usando no chapéu uma enorme pena branca, o que contrastava com o azul do restante da vestimenta

                 - Quem bom que está aqui, temos uma missão no setor 7 – avisou Cobertinha

                Sim, Cobertinha, os defensores dos sonhos podiam vir em toda e qualquer forma. Logo, alguma criança só pegava no sono ao lado de sua inseparável coberta.

                - Mas já? Eu mal cheguei – respondeu Sr. Fofinho pegando da parede do local seu escudo redondo e sua gladio

                Os três partiram para o setor 7 para enfrentar o pesadelo que tentava se estabelecer no Reino da Soneca.

                - Temos informação do que vamos enfrentar? – pergunta o ursinho

                - Sim, é um pesadelo de nível Amarelo – responde prontamente Cobertinha

                - Talvez dê um pouco de trabalho – ponderou a onça

                Ao se aproximaram já conseguiram visualizar a criatura, devia ter o tamanho de um caminhão e bem, Sr. Fofinho, por exemplo, era um ursinho de 30 cm de altura. A fera era um quadrúpede com uma cauda bem comprida, sem olhos e com uma boca enorme, cheia de dentes pontudos.

                O monstro, ao perceber a presença dos defensores, parte para o ataque e lança uma esfera de energia na direção deles.

                Sr. Fofinho pula na frente dos companheiros posicionando seu escudo, gera um campo de força e consegue defletir o ataque, Leo salta usando como impulso as costas do ursinho, desembainha seu sabre e com um corte no ar lança um semicirculo de energia, que acerta a cabeça do pesadelo, o deixando atordoado

                Cobertinha faz surgir uma bola de fogo gigante sobre ela, em seguida com uma movimento de seus, errr, não posso dizer braços, porque não o são, pontas? Isso, com o movimento de suas pontas faz com que a esfera incandescente caia sobre a fera atordoada

                Uma nuvem de poeira sobe, tampando a visão de nossos heróis, quando ela se dissipa é possivel ver que a fera, apesar de machucada, ainda está pronta para o combate e parte em direçao a eles

                Com uma forte patada ela atira Leo longe, a onça desliza pelo chão como um carro capotando

                Sr. Fofinho aproveita para se esgueiras por trás do monstro e desfere um golpe poderoso em sua cauda, arrancando a mesma. Um urro de dor e ódio pôde ser ouvido neste momento

                Aproveitando a vulnerabilidade da fera, Cobertinha ergue uma de suas pontas, Leo e Sr. Fofinho apontando suas espadinhas para o céu com um raio de luz saindo de suas extremidades, no alto se forma um triângulo luminoso que se projeta sobre o monstro sombrio. A explosão gerada faz com que este se desintegre e as partículas “pesadelísticas” retornem para seu local de origem

                - Parece que vai ser mais uma noite tranquila de sono para as nossas crianças – disse Cobertinha em um tom aliviado

                - Agora eu so quero me limpar e passar o resto do tempo fazendo vários nada – completou Leo

 

                Eles retornam a base, Cobertinha e Leo se jogam em suas poltronas na sala comunal. Cobertinha puxa um livro grande, com o título “Magia Arcana para iniciantes”. Leo, por sua vez, pega uma revista de história em quadrinhos chamada “As fantásticas aventuras do peixinho Glub Glub no reino encantado da Paçoca Rolha”.

                Já Sr. Fofinho prefere ir para o seu quarto, cansado depois da luta, so queria deitar em sua caminha. Mas ao abrir a porta ele se depara com algo que iria mudar o rumo do Universo, diria mais, iria mudar o rumo do Reino da Soneca e adjacências

                - Vo.....Voc......Você não deveria estar aqui – murmura o ursinho apavorado

                - Humanos não poderiam entrar no Reino da Soneca, é perigoso demais – completa preocupado – preciso levar você de volta.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

"Coisas que não tenho coragem de fazer e viram historinhas na minha cabeça"

Eis que um rapaz conhece uma moça e fica encantado por ela desde o primeiro momento. Mas este não é um rapaz como a maioria, ou talvez seja, mas ele acredita que não, ele tem certeza que ela nunca o olharia com os mesmos olhos que ele a vê.
Depois de muito tempo, e cansado de nunca tentar, ele toma coragem e se fazendo valer do escudo dos tímidos, as redes sociais, ele resolve “ousar”.
Rapaz: Olá, então, faz muito tempo que a gente não se fala né?
Rapaz: Na verdade, a gente nem nunca se falou muuuuito assim, mas e ai como vc ta?
Moça: Oiee, verdade né
Moça: Eu to bem e vc?
Rapaz: Bem tb, então sem querer parecer muito estranho, eu sempre achei que você parece ser uma moça bastante interessante e eu realmente gostaria de ter a oportunidade de conversar mais contigo. Seria ousado demais convidar você para um jantar qualquer dia desses? Não sei. (Acho que eu to sendo estranho =()
Moça: rs, claro que não, deixa de ser bobo.
Rapaz: Isso é um sim? Rsrs
Moça: Uhum
Rapaz: Então, o que você acha desse sábado? Te pego as 19:50 (as 20 é muito clichê). Podemos ir onde você quiser, de Japonês a McDonalds, passando por Mexicano, o céu é o limite.
Moça: Humm, adoro japonês
Rapaz: Então fechou, 19:50, na sua casa, para o japonês.
Moça: Ok
Como ele nunca pensou que isso aconteceria, vem o frio na barriga e o medo de falar algo que não deve ou agir de uma forma que assuste a moça e do dia da conversa até o dia do encontro o rapaz não consegue pensar em outra coisa.
Chega então o dia, ele faz a sua barba, toma um banho caprichado e usa até condicionador. Pede o carro do seu pai emprestado e se dirige até a casa da moça.
Estaciona, bem mais ou menos por sinal, e pede ao porteiro para avisá-la que ele já está. Então ela aparece, não depois de uma certa demora, com um vestido azul. O rapaz só consegue pensar em como ela é a moça mais fofa do universo, não que ele tenha visto muitas fora da Terra, mas pelo que ele sentiu ali, ele tinha plena certeza de que era sim.
Rapaz: Gostei da cor do seu vestido, combina com você.
Ela sorri, ele então a acompanha até o carro e se acomodam dentro dele.
Moça: Não esperava ouvir você dizer que gostou da cor do meu vestido.
Rapaz: Achei que dizer que você está linda seria algo que você tá cansada de ouvir e não seria nada diferente do que penso toda vez que te vejo.
Rapaz: Ok, agora eu fui estranho.
Ela corou.
O que conversaram no caminho e durante todo o jantar, acredito que não seja necessário relatar aqui, até porque não vamos xeretar a intimidade dos dois jovens. Apenas digamos que houve algumas risadas, um par de discussões filosóficas, outras nem tanto e um petit gateau foi dividido.
Ao pedir a conta e sem saber muito bem qual é o costume e a etiqueta da ocasião, ele leva uns minutos pensando.
Rapaz: Como você é minha convidada, se você me permitir, eu gostaria de ser o responsável pelo jantar desta noite.
Moça (rindo): Você não precisa ser tão formal, mas fique a vontade, “senhor”.
No caminho de volta, a conversa do jantar se prolonga, até que chegam ao ponto de encontro inicial desta noite. Os dois descem do carro e param na porta do prédio da moça.
Rapaz: Obrigado pela companhia tão agradável durante essa noite
Ela segura as mãos do rapaz
Moça: Eu que agradeço
Então estala um beijo rápido em uma das bochechas do rapaz, se vira em direção a portaria do seu prédio sem olhar para trás. Ao perdê-la de vista ele ergue suas mãos e por um momento, em um suspiro, sente o perfume que ela deixou ali.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Quando estávamos na guerra.


Esta história aconteceu há muito tempo, durante uma extensa guerra entre duas nações rivais. A disputa por uma região rica em recursos minerais era algo histórico e ambos os países acreditavam que seu futuro dependia do domínio dessas riquezas.

Como em toda guerra, a ambição dos poderosos faz com que os mais jovens sofram, já que são esses que são colocados na frente de combate.

Viktor era um jovem assim como outros milhares, que viu suas aspirações e sonhos serem interrompidos pela convocação para a guerra aos dezoito anos. Não era, com certeza, uma das cabeças mais altas entre seus colegas, mas era o mais largo entre eles devido ao trabalho ao qual estava acostumado na venda de seu pai, carregando pesadas caixas pelo vilarejo durante as entregas. O seu cabelo era bastante escuro e seus olhos tom castanho já se mostravam mais duros e cansados pelos dois anos de intenso combate.

Nos raros momentos que podiam recostar entre uma batalha e outra, os soldados contavam como eram suas vidas antes de irem para a guerra, seus sonhos e o que pretendiam fazer logo que fossem liberados.

Independente do local ou dos planos, todos, sem exceção, falavam do seu amor por sua esposa ou pela amada que deixaram em suas vilas e como pretendiam casar assim que chegassem e Viktor não era diferente.

Yulia e ele cresceram juntos, sempre estavam um com o outro, essa amizade fez com que os dois prometessem que estariam sempre lado a lado e para isso se casariam quando tivessem idade suficiente.

O tempo passou e nada diminuía o sentimento entre os dois, muito pelo contrário, cada dia mais o amor de Viktor por Yulia crescia e ele tinha plena certeza de que isto era recíproco, ela fazia questão de demonstrar.

Quando ele fora chamado para a guerra, Yulia já era praticamente uma mulher feita, dezessete anos, cabelos cor de palha seca e olhos tão azuis que poderia fazer o céu ficar com inveja, olhos estes que se tornaram vermelhos de tanto chorar pela partida de Viktor.
Agora estava ele ali, no meio daquele inferno, onde o único alento era a fumaça azul do cachimbo que fumava, isto porque o fazia recordar dos olhos de Yulia.
Depois de muitos combates, Viktor se mostrou um soldado formidável. Fora então condecorado por seus atos em batalha e como prêmio pode retornar a sua casa, poderia agora retornar aos braços de Yulia.

Assim que fora dispensado, subiu em seu cavalo negro e percorreu em ritmo acelerado o caminho que o separava do seu amor e de tudo que conhecia na vida, por todo o percurso traçou planos de como seria sua vida, ensaiou todas as palavras que diria a ela quando se encontrassem, diria o quanto sentiu sua falta e como a imagem de seu rosto o salvou durante as batalhas e fez com que ele tivesse um motivo para viver e lutar.

Chegando ao vilarejo, correu até a venda de seu pai e percebeu que havia pouquíssimos produtos, toda a produção estava sendo destinada aos soldados em combate e pouco havia para a população, entrou e encontrou seus pais, visivelmente abatidos, provavelmente pelos tempos difíceis que estavam vivendo, isso não impediu que ambos abrissem um largo sorriso ao ver o filho de volta ao lar.

Viktor amava muito seus pais, mas neste momento ele só conseguia pensar em Yulia. Disse aos seus pais que iria até a casa dela para dar as boas notícias de seu regresso, o olhar de sua mãe fez com que a barriga de Viktor congelasse, algo não estaria certo, mas acreditou ter tido uma sensação errada.
Acelerou o quanto pode até a casa do amor de sua vida, bateu a porta com o maior sorriso que já dera em sua existência. Yulia abre a porta, sorrindo, os cabelos cor de palha seca, mais longos do que quando ele havia ido para a guerra, e no momento em que os olhos azuis encontraram os seus olhos o sorriso dela se desfez e aos poucos o dele também.

Yulia passou a fitar as botas do soldado e sem que ambos trocassem uma palavra, uma voz masculina soou por de trás dela dizendo:

- Quem é, amor?

O rapaz era bastante inteligente para entender tudo que estava acontecendo ali, assim como ela já estava fazendo havia alguns segundo, ele olhou para as próprias botas, fez um leve aceno com a cabeça, girou em seus calcanhares e partiu.

Voltou para casa com seus olhos marejados, encontrou um pouco de tabaco amargo na venda de seu pai, recostou em uma cadeira, sacou seu cachimbo e o preparou. Enquanto sentia o sabor do tabaco lembrou-se de tudo o que havia passado, antes e durante a guerra.

O jovem não tinha mais duvidas, voltaria ao combate, pois lá haveria a bala certa para ele, a bala que acabaria com sua tristeza, a dor seria menor do que a que estava sentindo naquele momento.

Na manhã seguinte, antes mesmo do sol despertar, já estava no lombo de seu cavalo negro retornando para se realistar ao exército, com certeza teriam um lugar para um excelente soldado como ele.

Se sentiu estranhamente feliz ao se preparar para o combate mais uma vez. Em instantes estaria em um campo de batalha, fazendo o que se acostumou a fazer nos últimos dois anos.

Fazia parte da cavalaria e do alto da colina em que estava pode perceber a aproximação do exército inimigo. Era uma manhã fria, a neve caía levemente sobre o local, mas Viktor tomou cuidado para que a lâmina de sua espada não ficasse presa em sua bainha por conta do frio.

Os inimigos armaram uma primeira linha com homens armados de mosquetes, ao ver isso Viktor sorriu, ao fundo estava a artilharia com seus canhões e no meio a infantaria e a cavalaria adversária.
O capitão preparava a carga da cavalaria e o jovem sentia seu coração bater cada vez mais forte. Ao ser ordenada a disparada Viktor era o primeiro usando a velocidade de seu cavalo.

E foi ele quem deu o primeiro tiro, com seu mosquete, acertando um dos atiradores inimigos. Continuou a carga agora gritando e sacando sua espada, enquanto as balas zuniam próximas aos seus ouvidos. O som dos mosquetes e dos canhões era ensurdecedor e o cheiro de pólvora começou a ficar mais forte assim que as balas começaram a ser atiradas de todos os lados.

Sem perder o ritmo Viktor chegou a linha de atiradores, a fumaça impedia que seus companheiros soubessem onde ele estava, logo em seguida estes foram chegando e se juntando ao combate e à batalha de sons se somava o tilintar das espadas.

Aos poucos o barulho foi diminuindo, os sons estrondosos das armas foram dando lugar a, quase inaudíveis, gemidos e murmúrios de clemência e de dor.

Ao longe, bem atrás nas linhas inimigas, podia se ver um pequeno incêndio, os sobreviventes olhavam para o local, lamentando pelos soldados que haviam perdido. Os compatriotas de Viktor haviam vencido o combate, mas nem sinal do bravo soldado.

Instantes depois, em meio as chamas, surge o rapaz, montado em seu cavalo negro, a espada empunhada coberta de sangue, assim como seu rosto liso e suas roupas.


Viktor pensou que, aparentemente, a morte não era para ele.